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Diálogo – Uma proposta
David Bohm, Donald Factor e Peter Garrett
Diálogo, do modo como escolhemos usar a palavra, é um caminho para explorar as raízes das diversas crises que a humanidade enfrenta hoje. Ele nos torna capazes de investigar e compreender os tipos de processos que fragmentam e interferem com a comunicação real entre indivíduos, nações e até diferentes partes da mesma organização. Na nossa cultura moderna os homens e mulheres podem interagir de muitas formas: podem com facilidade cantar, dançar ou brincar uns com os outros, mas a capacidade que têm de falar sobre assuntos que tenham importância e profundidade parece levar sempre a disputas, divisões e até violência. Para nós, essa condição aponta na direção de um profundo e penetrante defeito no processo do pensamento humano.

No Diálogo, um grupo de pessoas pode explorar os pressupostos, idéias, crenças e sentimentos individuais e coletivos que sutilmente controlam suas interações; oferece uma oportunidade de participar num processo que exibe os sucessos e fracassos de comunicação. Pode revelar os padrões de incoerência, freqüentemente difíceis de entender, e que levam o grupo a evitar certas questões ou, por outro lado, a insistir, de modo totalmente irracional, na defesa de certas opiniões em determinados assuntos.

O Diálogo é uma maneira de observar, coletivamente, como valores e intenções ocultas podem controlar nosso comportamento, e como diferenças culturais não percebidas podem colidir sem que percebamos o que está acontecendo. Pode, assim, ser visto como uma arena em que se dá o aprendizado coletivo, e em que pode surgir um senso maior de harmonia, companheirismo e criatividade.

Como a natureza do Diálogo é exploratória, seu significado e métodos continuam a se revelar. Não se pode estabelecer regras rígidas para conduzir o Diálogo porque ele é essencialmente aprendizagem — não como resultado do consumo de um corpo de informações ou uma doutrina comunicada por uma autoridade, nem como meio de examinar ou criticar uma particular teoria ou programa, mas como parte de um processo de participação criativa entre pares que está em contínuo desenvolvimento. No entanto, sentimos que é importante que esse significado e seu pano de fundo sejam compreendidos.

Nossa abordagem a esta forma de Diálogo surgiu de uma série de conversas iniciada em 1983, em que investigamos a sugestão de David Bohm de que as infindáveis crises que afetam a humanidade tem como causa essencial uma incoerência disseminada no processo do pensamento humano. Isso nos levou, nos anos seguintes, a iniciar uma série de conversações e seminários, em diversos países e com vários grupos humanos, que começou a tomar a forma de Diálogos.

À medida que seguíamos, ficava cada vez mais claro para nós que este processo de Diálogo é um meio poderoso de compreender como funciona o pensamento. Percebemos que vivemos em um mundo quase totalmente produzido pelo pensamento e empreendimento humanos. A sala em que estamos sentados, a língua em que estas palavras são escritas, as fronteiras da nossa nação, nossos sistemas de valor, e até mesmo aquilo que tomamos como sendo as nossas percepções diretas da realidade são essencialmente manifestações da maneira como os seres humanos pensam e pensaram. Percebemos que sem nos dispormos a explorar esta situação e obter uma visão e conhecimento profundos sobre ela, não conseguiremos confrontar as crises reais do nosso tempo, nem podemos encontrar mais do que soluções temporárias para a vasta coleção de problemas humanos com que nos defrontamos agora.

Usando aqui o termo “pensamento”, queremos referir-nos não apenas aos produtos do nosso intelecto, mas também nossos sentimentos, emoções, intenções e desejos. Incluímos também as manifestações sutis e condicionadas da aprendizagem, como as que nos permitem dar sentido a uma sucessão de cenas separadas num filme de cinema, ou traduzir os símbolos abstratos nas placas de sinalização das estradas, juntamente com os processos tácitos e não-verbais usados no desenvolvimento de habilidades como andar de bicicleta. Essencialmente o pensamento, da maneira como usamos a palavra, é a resposta ativa da memória em cada fase da vida. Virtualmente todo o nosso conhecimento é produzido, exibido, comunicado, transformado e aplicado no pensamento.

Para esclarecer mais esta abordagem, propomos que, se observarmos com um pouco mais de atenção, até o que chamamos de pensamento racional pode ser visto como extensivamente formado de respostas condicionadas e enviesado pelo pensamento prévio, anterior. Se olharmos cuidadosamente para aquilo que geralmente tomamos pela realidade, começamos a perceber que inclui uma série de conceitos, memórias e reflexos coloridos pelas nossas necessidades, medos e desejos pessoais, todos limitados e distorcidos pelas fronteiras da linguagem e hábitos da nossa história, sexo e cultura. É extremamente difícil decompor essa mescla ou chegar a alguma certeza sobre se o que percebemos — ou o que pensamos sobre essas percepções — tem qualquer precisão ou exatidão.

O que torna essa situação tão séria é o fato de que o pensamento geralmente esconde esses problemas da nossa percepção imediata gerando a idéia de que a maneira pela qual cada um de nós interpreta o mundo é o único modo sensato de fazê-lo. É necessário um procedimento pelo qual possamos desacelerar o processo de pensamento para poder observá-lo enquanto acontece — em “tempo real”.
Nossos corpos físicos têm essa capacidade mas, aparentemente, o pensamento não. Ao levantar seu braço, você sabe que é um ato voluntário seu, e que nenhuma outra pessoa está fazendo esse movimento. Podemos perceber as ações e movimentos corporais enquanto estão ocorrendo, mas geralmente nos falta essa habilidade no domínio do pensamento. Por exemplo, não notamos que a nossa atitude para com uma pessoa pode ser profundamente afetada pelos sentimentos e reações que temos frente a uma outra pessoa que têm certos traços em comum com essa primeira — comportamentos, ou até sua aparência. Em vez disso, partimos do pressuposto que a nossa atitude surge diretamente da conduta mesma dessa pessoa. O problema do pensamento é que ao que parece o tipo de atenção necessária para notar essa incoerência raramente está disponível quando mais é necessária.

Por Que Diálogo
O Diálogo oferece um espaço no qual essa atenção pode acontecer. Permite expor o pensamento e significado que torna possível um tipo de propriocepção coletiva, ou o imediato devolver tanto do conteúdo do pensamento quanto das estruturas dinâmicas menos aparentes que o governam. No Diálogo isso pode ser experimentado tanto individual quanto coletivamente. Cada ouvinte é capaz de devolver para cada expositor, e para o resto do grupo, uma visão de alguns dos pressupostos e implicações não verbalizadas do que está sendo expresso, bem como do que está sendo evitado. Cada participante, com isso, tem a oportunidade de examinar os preconceitos, as concepções prévias e padrões característicos que subjazem aos seus pensamentos, opiniões, crenças e sentimentos, bem como aos papéis que habitualmente desempenha. E oferece a oportunidade de compartilhar esses insights.

A palavra “diálogo” deriva de duas raízes: “dia”, que significa “através de”, e “logos”, que significa “palavra”, ou, mais particularmente, “o significado da palavra”. A imagem, aqui, é a de um rio de significado fluindo pelos participantes e através deles. Podem-se envolver tantas pessoas quantas se queira no Diálogo — pode-se até ter um Diálogo consigo mesmo — mas o tipo de Diálogo que sugerimos envolve um grupo de vinte a quarenta pessoas sentadas formando um círculo para conversar.

Algo do significado de um Diálogo assim pode ser encontrado nos relatos de grupos de caçadores que se reúnem, mais ou menos com esse número de pessoas, para encontrar-se sem agenda explícita ou propósito pré-determinado. Mesmo assim, esses encontros parecem criar e desenvolver laços muito coesos, muita camaradagem, fazendo com que os participantes saibam o que se espera deles sem que tenham recebido instruções para tal, e sem muita troca verbal. Em outras palavras, emerge dentro do grupo o que se pode chamar de “cultura coerente de significado compartilhado”. É possível que essa coerência tenha existido no passado, em comunidades humanas, antes que a tecnologia começasse a mediar a nossa experiência do mundo vivo.

Dr. Patrick de Mare, um psiquiatra de Londres, fez um trabalho pioneiro muito semelhante, em condições modernas. Criou grupos mais ou menos do mesmo tamanho, com o propósito de realizar o que chamou de “sócio-terapia”. Sua visão era de que uma causa primeira para a profunda e penetrante doença da nossa sociedade pode ser encontrada no nível sócio-cultural, e que grupos assim podem servir como micro-culturas em que a fonte da enfermidade da nossa grande civilização possa ser exposta. Nossa experiência nos levou a estender essa noção de Diálogo enfatizando e dando especial atenção ao papel fundamental da atividade do pensamento na origem e manutenção desse conflito.

Como um microcosmo dessa grande cultua, o Diálogo permite que se revele um amplo espectro de relacionamentos possíveis. Pode expor o impacto da sociedade sobre o indivíduo e o do indivíduo na sociedade. Pode mostrar como o poder é assumido ou não, e quão penetrantes são as regras não-percebidas do sistema que constitui nossa cultura. Mas está mais profundamente interessado em compreender a dinâmica de como o pensamento concebe tais conexões.

Não está interessado em deliberadamente tentar alterar ou transformar o comportamento, e nem fazer com que os participantes se dirijam a uma determinada meta ou objetivo. Qualquer tentativa assim distorce e obscurece os processos que o Diálogo se propõe a explorar. Mesmo assim, mudanças de fato ocorrem, porque o pensamento observado se comporta diferentemente do não-observado. O diálogo pode assim tornar-se uma oportunidade para dar livre curso aos pensamentos e sentimentos, num contínuo de significado mais profundo ou mais geral. Qualquer tema pode ser incluído e não se exclui nenhum conteúdo. Uma atividade assim é muito rara em nossa cultura.

Propósito e significado
Normalmente as pessoas se reúnem ou para realizar uma tarefa ou para se divertir, sendo que os dois podem ser categorizados como propósitos predeterminados. Mas, por sua própria natureza, o Diálogo não é compatível com nenhum propósito além do interesse dos seus participantes na revelação e desdobramento dos significados coletivos mais profundos. Estes podem, às vezes, ser divertidos, esclarecedores, levar a novos insights ou encaminhar problemas existentes. Mas, surpreendentemente, o Diálogo, em seus estágios iniciais, levará freqüentemente à experiência da frustração.
Um grupo de pessoas convidadas a dar seu tempo e atenção séria a uma tarefa que não tem objetivo aparente e que não está sendo conduzida em alguma direção perceptível pode rapidamente descobrir-se com muita ansiedade ou achando aquilo tudo muito maçante... Isso pode levar alguns ao desejo ou de encerrar o grupo ou de tentar exercer controle sobre ele e dar-lhe uma direção. Propósitos previamente desconhecidos revelam-se. Sentimentos fortes são expostos, junto com os pensamentos subjacentes a eles. As pessoas podem tomar posições fixas, e freqüentemente ocorrem polarizações. Tudo isso é parte do processo. É o que sustenta o Diálogo e o mantém constantemente criativo em novos domínios.
Numa reunião com vinte a quarenta participantes podem ocorrer extremos de frustração, raiva, conflito ou outras dificuldades; mas com este tamanho de grupo pode-se dar continente a tais problemas com relativa facilidade. Na realidade, eles podem se tornar o foco central da investigação, no que pode ser compreendido como um tipo de “meta-diálogo”, que tem como objetivo clarificar o próprio processo do Diálogo.
À medida que aumentam a experiência e a sensibilidade, emerge uma experiência de significado compartilhado em que as pessoas se descobrem num estar em que não se opõem umas às outras, ao mesmo tempo em que não estão apenas interagindo. O aumento da confiança entre membros do grupo — e no próprio processo — leva à expressão dos tipos de pensamentos e sentimentos normalmente mantidos em segredo. Não há consenso imposto, nem qualquer tentativa de evitar conflito. Nenhum indivíduo ou sub-grupo é capaz de conseguir predominância, porque cada tema, incluindo dominância e submissão, sempre pode ser focalizado.
Os participantes descobrem que estão envolvidos em uma piscina de significado comum, sempre mutável e em desenvolvimento. Um conteúdo de consciência compartilhado emerge, permitindo um nível de criatividade e insight que normalmente não é possível para indivíduos ou grupos que interagem de maneiras mais conhecidas. Isso revela um aspecto do Diálogo que Patrick de Mare chamou de koinonia, uma palavra que significa a antiga forma de democracia ateniense em que todos os homens livres da cidade reuniam-se para governarem a si próprios.
À medida que essa camaradagem se torna experiência começa a ter precedência sobre o conteúdo mais aberto da conversação (sic). É um estágio importante do Diálogo, um momento em que a coerência é cada vez maior, o grupo é capaz de ir além dos bloqueios e limitações que identifica e entrar num território novo. Mas é também um ponto em que um grupo pode começar a relaxar e acomodar-se no “barato” que acompanha a experiência. Este é o ponto em que normalmente há alguma confusão entre o Diálogo e algumas formas de psicoterapia. Os participantes podem querer manter o grupo unido para preservar o agradável sentimento de segurança e de pertencimento que acompanha esse estado. Isso é similar ao sentimento de comunidade freqüentemente atingido em grupos de terapia ou workshops de “team building”, e é tomado como prova do sucesso do método usado. Além desse ponto, entretanto, há reinos ainda mais significativos e sutis da criatividade, inteligência e compreensão, que só podem ser atingidos pela persistência no processo de investigação e arriscando re-entrar em áreas de incerteza potencialmente caótica ou frustrante.

O que o Diálogo não é
O diálogo não é discussão, palavra que tem a mesma raiz de “percussão” e “concussão”, ambas ligadas a quebrar, fragmentar. Também não é debate. Essas formas de conversação contêm uma tendência implícita de dirigir-se para uma meta, martelar um acordo, tentar resolver um problema ou fazer a própria opinião prevalecer. Também não é “salão”, uma forma de encontro informal e freqüentemente se caracteriza por ter a intenção de divertir, trocar amizades, fofocas e outras informações. Apesar do termo “diálogo” comumente ser usado com significado parecido, seu significado raiz, mais profundo, indica que ele não está primordialmente interessado em nenhuma destas modalidades de encontro.

Diálogo não é um novo nome para T-grupos ou “sensitivity training”, ainda que seja superficialmente similar a estas e outras formas relacionadas de trabalho de grupo. Suas conseqüências podem ser psicoterapêuticas, mas ele não tenta focar na remoção de bloqueios emocionais de qualquer participante nem ensinar, treinar ou analisar. No entanto, é uma arena em que o aprendizado e a dissolução de bloqueios podem acontecer — e freqüentemente acontecem. Não é uma técnica de resolução de problemas ou conflitos, ainda que muitos problemas possam ser solucionados ao longo do processo de Diálogo, ou talvez depois, como resultado de uma compreensão e companheirismo maiores que se estabelecem entre os participantes. É, como enfatizamos, primeiramente um modo de explorar o campo do pensamento.

O Diálogo lembra várias outras formas de atividade em grupo e pode às vezes incluir aspectos delas, mas de fato é algo novo para nossa cultura. Acreditamos que é uma atividade que pode muito bem vir a provar-se vital para a futura saúde da nossa civilização.

Como iniciar um Diálogo

Suspensão
A suspensão de pensamentos, impulsos, julgamentos, etc. é o coração do Diálogo. É um dos aspectos novos mais importantes. Não é fácil de atingir porque é ao mesmo tempo pouco familiar e sutil. Suspensão implica em atenção, ouvir e ver, e é essencial à investigação. Falar é necessário, é claro, pois sem falar haveria pouco a explorar no Diálogo. Mas o processo real de exploração ocorre durante o ouvir — não apenas aos outros, mas a si mesmo. Suspensão implica em expor as próprias reações, impulsos, sentimentos e opiniões de maneira tal que possam ser vistos e sentidos em nossa própria psique e também ser refletidos de volta por outros no grupo. Não quer dizer reprimi-los ou suprimi-los, e nem mesmo adiá-los. Significa simplesmente dar-lhes sua total atenção para que suas estruturas possam ser percebidas ao mesmo tempo em que acontecem. Se você é capaz de prestar atenção, digamos, aos fortes sentimentos que podem acompanhar a expressão de um determinado pensamento — seu ou dos outros — e manter essa atenção,a atividade do processo de pensamento terá a tendência de desacelerar. Com isso você pode começar a ver os significados mais profundos subjacentes ao seu processo de pensamento e sentir a estrutura muitas vezes incoerente de qualquer ação que, de outro modo, você realizaria automaticamente. Da mesma maneira, se um grupo é capaz de suspender tais sentimentos e prestar atenção a eles, o processo geral que flui do pensamento, para o sentimento, para a atuação no grupo, pode também desacelerar e mostrar seus sentidos mais sutis e mais profundos, sem nenhuma de suas distorções implícitas, levando ao que poderia ser descrito como um novo tipo de inteligência coletiva, coerente.
Suspender o pensamento, impulso, julgamento, etc. requer séria atenção ao processo geral que consideramos — em nós próprios e dentro do grupo. Isso implica em algo que à primeira vista parece um tipo de trabalho árduo. Mas se esse trabalho é mantido, nossa capacidade de dar esse tipo de atenção se desenvolve continuamente, de modo que cada vez menos esforço é necessário.

Números
Um Diálogo funciona melhor com um número de participantes entre 20 e 40, sentados em círculo. Um grupo desse tamanho permite o surgimento e observação de diferentes subgrupos ou subculturas que podem ajudar a revelar alguns desvios em que o pensamento opera coletivamente. Isto é importante porque as diferenças entre essas subculturas são muitas vezes a causa não-reconhecida de conflitos e falhas na comunicação. Grupos menores, por outro lado, não têm a necessária diversidade para revelar essas tendências e terão a tendência de enfatizar papéis e relacionamentos mais pessoais e familiares. Tivemos grupos de até sessenta participantes, mas com um número tão elevado o processo se torna impossível. São necessários dois círculos concêntricos para acomodar todos de maneira a poderem ver e ouvir uns aos outros. Isso coloca os que estão sentados atrás em desvantagem, e menos participantes têm a oportunidade de falar.
Pode-se mencionar aqui que alguns participantes tendem a falar muito, enquanto outros têm dificuldade em expressar-se em grupos. Vale lembrar, no entanto, que a palavra “participação” tem dois sentidos: “compartilhar” e “fazer parte de”. Ouvir é pelo menos tão importante quanto falar. Muitas vezes os participantes mais silenciosos começam a falar mais à medida que se familiarizam com a experiência do Diálogo, e os indivíduos mais dominadores descobrem-se tendendo a falar menos e ouvir mais.

Duração
Um Diálogo necessita algum tempo para pôr-se em andamento. É uma forma incomum de participar com outros e é necessário fazer alguma forma de introdução em que o significado todo da atividade possa ser comunicado. Mas mesmo com uma introdução clara, quando o grupo começa a falar passa por muitos momentos de confusão, frustração, e uma preocupação inibidora sobre se estão ou não praticando Diálogo. Seria muito otimista assumir que um Diálogo comece e atinja alguma grande profundidade no primeiro encontro. É importante ressaltar que é necessário ter perseverança.
Ao iniciar Diálogos é útil, no começo, entrar em um acordo quanto à duração da sessão, e encarregar alguém de marcar o tempo no final da sessão. Descobrimos que cerca de duas horas é um tempo ótimo. Sessões mais longas arriscam o fator fadiga que tende a diminuir a qualidade da participação. Muitos T-grupos usam extensas “maratonas” que usam esse fator fadiga para quebrar algumas das inibições dos participantes. Diálogo, por outro lado, está mais interessado em explorar os construtos sociais e inibições que afetam as nossas comunicações do que tentar desviar deles.
Quanto mais regularmente o grupo se encontrar, mais profundo e significativo será o território explorado. Usa-se freqüentemente o fim-de-semana para fazer várias sessões em seguida, mas se o desejo é fazer o Diálogo por um tempo mais longo sugerimos que haja ao menos uma semana de intervalo entre uma sessão e outra, dando tempo para reflexões individuais e aprofundamentos. Não há limite para o tempo de duração de um grupo de Diálogo e sua exploração. Mas seria contrário ao espírito do Diálogo que ele se torne fixo ou institucionalizado. Isso sugere abertura à constante mudança de membros, horários ou outras manifestações de uma atitude séria no sentido de evitar que uma rigidez implícita possa se estabelecer. Ou, até, a dissolução do grupo após um certo período.

Liderança
Um Diálogo é essencialmente uma conversação entre iguais. Qualquer autoridade controladora, não importa quão cuidadosa ou sensivelmente aplicada, tende a inibir e atrapalhar a livre manifestação do pensamento e os muitas vezes delicados e sutis sentimentos que seriam de outro modo compartilhados. Diálogo é vulnerável à manipulação, mas seu espírito não é compatível com ela. Não há lugar, no Diálogo, para hierarquias.
No entanto, nos estágios iniciais alguma liderança é necessária para ajudar os participantes a perceber as sutis diferenças entre o Diálogo e outras formas de processo de grupo. É essencial a presença de pelo menos um ou preferivelmente dois facilitadores experientes. O papel destes facilitadores é ocasionalmente indicar situações que aparentemente estejam mostrando ao grupo pontos paralisantes, ou, em outras palavras, ajudar o processo de propriocepção coletiva. Mas essas intervenções nunca devem ser manipuladoras ou obtrusive. Os líderes são participantes como quaisquer outros. A liderança, quando for sentida como necessária, deve tomar a forma de “liderar nos bastidores” e preservar a intenção de ser dispensável assim que for possível.
No entanto, essa proposta não substitui a presença de facilitadores experientes. Sugerimos, mesmo assim, que este texto seja lido com o grupo no seu encontro inicial, de modo que todos os participantes possam ficar seguros de que estão embarcando no mesmo experimento.

Tema
O Diálogo pode começar com qualquer tópico de interesse para os participantes. Se alguns membros do grupo sentem que certas trocas ou temas são perturbadores ou inadequados, é importante que expressem esses pensamentos no Diálogo. Nenhum conteúdo deve ser excluído.
Muitas vezes os participantes farão fofocas ou expressarão sua insatisfação ou frustração após uma sessão, mas é exatamente esse tipo de material que oferece o solo mais fértil para levar o Diálogo a reinos mais profundos de significado e coerência para além da superficialidade de um “pensamento de grupo”, boas maneiras ou conversa de jantar.

Diálogo em organizações existentes
Até aqui estivemos examinando principalmente Diálogos que reúnem indivíduos de vários backgrounds diferentes, e não de organizações existentes. Mas o seu valor também pode se sentir em membros de uma organização, como modo de aumentar e enriquecer a criatividade corporativa.
Nesse caso o processo de Diálogo muda consideravelmente. Membros de uma organização existente já terão desenvolvido vários tipos de relacionamento entre si e com a sua organização como um todo. Aqui pode haver uma hierarquia pré-existente ou sentir-se uma necessidade de proteger os colegas, o grupo ou o departamento. Pode haver medo de expressar pensamentos que possam ser vistos como críticas aos que estão acima na organização ou de normas da cultura organizacional. Carreiras ou a aceitação social dos membros individuais podem aparecer como ameaçadas pela participação num processo que enfatiza a transparência, abertura, honestidade, espontaneidade e o tipo de interesse profundo pelos outros que pode trazer áreas de vulneráveis às vezes mantidas ocultas por muito tempo.
Em uma organização existente o Diálogo provavelmente terá que começar por uma exploração de todas as dúvidas e medos que a participação certamente eliciará. Membros poderão ter que começar com uma agenda mais ou menos específica, da qual futuramente poderão ser encorajados a divergir. Isso difere da abordagem tomada com grupos formados por pessoas que participam voluntariamente, ou apenas uma vez, e que estão livres para começar a partir de qualquer tema. Mas, como mencionamos, nenhum conteúdo deve ser excluído porque o impulso para excluir um tema é em si um rico material para investigação.
Muitos organizadores têm propósitos e metas implícitos e predeterminados que são questionados raramente. De início isso também pode parecer incompatível com o jogo livre e aberto do pensamento que é tão intrínseco ao processo do Diálogo. No entanto, também isso pode ser superado se os participantes recebem ajuda desde o início para perceber que considerar esses temas pode se provar essencial para o bem-estar da organização e pode, por sua vez, ajudar a melhorar a auto-estima dos participantes bem como o respeito com que são vistos pelos outros.
O potencial criativo do Diálogo é grande bastante para permitir uma suspensão temporária de qualquer das estruturas e relacionamentos que são constituintes de uma organização.
Finalmente, queremos deixar claro que não propomos o Diálogo como uma panacéia, nem como método ou técnica para substituir as outras formas de interação social. Nem todos o acharão útil, e ele não o será em todos os contextos. Há grande valor em muitos métodos psicoterapêuticos e há muitas tarefas que exigem liderança firme e uma estrutura organizacional muito bem formada.
Muito do tipo de trabalho que descrevemos aqui pode ser realizado independentemente, e estimulamos esse proceder. Muitas das idéias desta proposta são ainda temas da nossa investigação contínua. Não aconselhamos que sejam tomadas como fixas mas que também sejam questionadas, como parte do seu próprio Diálogo.
O espírito do Diálogo é brincar e jogar livremente, um tipo de dança coletiva da mente que, entretanto, tem imenso poder e revela propósito coerente. Uma vez começado, torna-se uma aventura contínua que pode abrir caminho para uma mudança significativa e criativa.

 
 

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